História real · Steve Jobs · 1955-2011
Steve Jobs: expulso da Apple, voltou e a salvou da falência
Cupertino, Califórnia · Leitura de 10 minutos

Neste artigo
- Quem foi Steve Jobs
- O que "demitido da Apple" quer dizer no registro corporativo
- Linha do tempo de Steve Jobs
- NeXT: o fracasso comercial que virou a base técnica
- Pixar: dez milhões de dólares e uma década de prejuízo coberto
- A compra da NeXT, e por que ela foi a porta de volta
- O corte de 1997, em números
- Três erros comuns sobre a demissão de Steve Jobs
- O exercício das duas caixas
- Perguntas frequentes
Em maio de 1985, o conselho da Apple retirou de Steve Jobs, então com 30 anos, o comando da divisão que ele havia criado. Onze anos e sete meses depois, a mesma empresa pagou perto de 429 milhões de dólares por uma companhia cujo dono era ele.
A versão curta chama o episódio de demissão e o retorno de milagre. Os dois nomes escondem a mecânica, que é de governança corporativa e de aquisição, não de destino.
Este guia percorre o registro: o que o conselho decidiu em 1985, o que a NeXT e a Pixar construíram durante o intervalo, por que a compra da NeXT foi a porta de volta e o que exatamente ele cortou em 1997.
Quem foi Steve Jobs
Steven Paul Jobs nasceu em 24 de fevereiro de 1955, em São Francisco, e foi adotado ainda bebê por Paul e Clara Jobs. Largou a faculdade de Reed depois de um semestre e passou a assistir aulas avulsas, entre elas a de caligrafia que citaria décadas depois.
Fundou a Apple Computer em 1º de abril de 1976 com Steve Wozniak e Ronald Wayne, que deixou a sociedade em menos de duas semanas. O Apple II, lançado em 1977, foi o produto que transformou a garagem em indústria.
A empresa abriu o capital em dezembro de 1980, e Jobs virou multimilionário aos 25 anos. Em 1983 recrutou John Sculley, executivo da PepsiCo, com a pergunta que virou folclore do Vale do Silício sobre passar a vida vendendo água com açúcar.
O que "demitido da Apple" quer dizer no registro corporativo
O Macintosh foi lançado em janeiro de 1984 com campanha memorável e vendas que decepcionaram depois do impulso inicial. A tensão entre Jobs e Sculley cresceu ao longo do ano seguinte, até virar disputa aberta sobre quem mandava.
O desfecho de maio de 1985 não foi uma carta de demissão. O conselho apoiou Sculley e retirou de Jobs as responsabilidades operacionais, tirando dele a divisão Macintosh. Ele manteve o título de presidente do conselho e ganhou uma sala afastada, sem equipe e sem projeto, que os funcionários apelidaram de Sibéria.
A saída formal veio em setembro de 1985, por decisão do próprio Jobs, que pediu demissão do cargo e vendeu quase todas as ações da Apple, guardando uma única para continuar recebendo relatório de acionista.
A diferença entre as duas versões não é detalhe jurídico. Ele foi esvaziado por votação do conselho e saiu por conta própria quatro meses depois, o que explica por que o retorno de 1996 não exigiu desfazer nenhuma demissão.
Há ainda um efeito prático da saída negociada. Como vendeu a participação em vez de ser afastado com pacote de rescisão, Jobs saiu com capital próprio na mão, e foi esse dinheiro que financiou a NeXT e a compra da Pixar no ano seguinte. Um executivo demitido sem ações não teria como fundar duas empresas.
Linha do tempo de Steve Jobs
- 1955Nasce em São Francisco e é adotado por Paul e Clara Jobs.
- 1º de abril de 1976Funda a Apple Computer com Steve Wozniak e Ronald Wayne.
- Dezembro de 1980A Apple abre o capital, e Jobs fica multimilionário aos 25 anos.
- 1983Recruta John Sculley, da PepsiCo, para o cargo de presidente executivo.
- Janeiro de 1984Lança o Macintosh.
- Maio de 1985O conselho apoia Sculley e retira de Jobs as funções operacionais.
- Setembro de 1985Ele pede demissão, vende as ações e funda a NeXT.
- 1986Compra do grupo de computação gráfica da Lucasfilm, que vira a Pixar.
- Novembro de 1995Toy Story estreia e a Pixar abre o capital na mesma temporada.
- Dezembro de 1996A Apple anuncia a compra da NeXT por perto de 429 milhões de dólares.
- Setembro de 1997Jobs assume como presidente executivo interino.
- Agosto de 1998O iMac chega às lojas e a empresa volta ao lucro anual.
- 5 de outubro de 2011Morre aos 56 anos, seis semanas depois de deixar o cargo.
Uma história como esta, todo dia às 09:09
Queda e Triunfo desenterra uma história real de queda e reconstrução por dia. Gratuito, por email.
1 email/dia · 4 min · Cancele quando quiser
NeXT: o fracasso comercial que virou a base técnica
A NeXT nasceu em 1985 para vender estações de trabalho caras a universidades e laboratórios. O hardware era elegante e o preço era alto, e o volume nunca chegou perto do de um fabricante de computador pessoal.
O que a empresa produziu de valor duradouro foi o software. O sistema NeXTSTEP trazia um núcleo de padrão Unix, gerenciamento de memória protegido e um ambiente de programação orientado a objetos com bibliotecas prontas, combinação rara em máquina de mesa naquele momento.
Há uma prova pública do nível do conjunto. Em 1990, no laboratório do CERN, Tim Berners-Lee escreveu o primeiro servidor e o primeiro navegador da web numa máquina NeXT, e citou o ambiente de desenvolvimento como razão da escolha.
A conclusão que interessa: a NeXT vendeu pouco e construiu exatamente a peça que faltaria à Apple dez anos depois.
Pixar: dez milhões de dólares e uma década de prejuízo coberto
Em 1986 Jobs comprou de George Lucas a divisão de computação gráfica da Lucasfilm. O negócio foi de cerca de 5 milhões de dólares pela empresa mais um compromisso de aporte de outros 5 milhões, algo perto de 10 milhões no total.
A tese inicial era vender hardware gráfico. Ela não emplacou, e a Pixar queimou dinheiro por anos, com Jobs cobrindo o prejuízo do próprio bolso, aporte após aporte, num valor acumulado que biógrafos estimam na casa das dezenas de milhões.
O que salvou a empresa foi a mudança de negócio: de fabricante de máquina para estúdio de animação, com contrato de distribuição fechado com a Disney em 1991. Toy Story, o primeiro longa inteiramente gerado por computador, estreou em novembro de 1995.
A abertura de capital da Pixar veio poucos dias depois da estreia do filme, e a participação de Jobs valia, no papel, mais de um bilhão de dólares. O homem afastado da Apple ficou rico fora dela, e por um caminho que ninguém previa.
A compra da NeXT, e por que ela foi a porta de volta
Em 1996 a Apple estava em situação grave: prejuízo bilionário, participação de mercado em queda e, sobretudo, sem sistema operacional moderno. O projeto interno de substituição do Mac OS clássico, o Copland, havia sido abandonado depois de anos de atraso.
A empresa foi ao mercado comprar um sistema pronto. A disputa final ficou entre a Be, de Jean-Louis Gassée, e a NeXT, e a Apple escolheu a NeXT em dezembro de 1996, por algo próximo de 429 milhões de dólares, entre pagamento à vista e ações.
O detalhe decisivo é o que veio embalado. O NeXTSTEP virou a base do Mac OS X, lançado em 2001, e o mesmo núcleo sustenta até hoje o sistema dos computadores e dos telefones da marca. Junto com o software voltou o fundador, primeiro como consultor, depois como presidente executivo interino em setembro de 1997.
O corte de 1997, em números
O primeiro movimento de Jobs de volta ao comando foi de subtração. Ele encerrou o programa de clones do Mac, cancelou o assistente digital Newton e reduziu uma linha inchada de produtos, que passava de dezenas de modelos e variações, a um punhado de máquinas.
A ferramenta de decisão era um quadro de quatro caixas desenhado numa lousa: consumidor e profissional nas colunas, computador de mesa e portátil nas linhas. Cada caixa receberia um produto, e o que não coubesse ali morria.
Do quadro saíram, em ordem, o iMac em 1998, o iBook em 1999 e as versões profissionais correspondentes. No mesmo período ele fechou com a Microsoft um acordo anunciado em agosto de 1997: investimento de 150 milhões de dólares em ações sem direito a voto e compromisso de continuar publicando o Office para Mac por cinco anos.
O efeito foi rápido. A Apple voltou ao lucro no ano fiscal de 1998, e a sequência seguinte, com iPod, loja de música, iPhone e iPad, levou a empresa ao topo do valor de mercado mundial no início da década seguinte.
Três erros comuns sobre a demissão de Steve Jobs
O primeiro é dizer que Sculley o demitiu sozinho. A decisão foi do conselho, que escolheu entre os dois depois de uma articulação de bastidor que vazou, e Sculley sempre sustentou essa versão em entrevistas posteriores.
O segundo é tratar os doze anos fora como pausa. Foi nesse intervalo que ele construiu o sistema operacional que a Apple compraria e o estúdio que mudaria a animação, além de aprender a tocar empresa com dinheiro contado.
O terceiro é repetir sem contexto que a Apple estava a noventa dias da falência. A frase é do próprio Jobs, a situação era ruim de fato, e analistas que revisaram os balanços do período consideram a estimativa dramática demais. É afirmação de quem chegou para virar o jogo, não medida contábil.
O exercício das duas caixas
O quadro de 1997 funciona fora de uma fabricante de computador, e é o legado mais aplicável da história.
Liste tudo o que você mantém em aberto: projetos, clientes, produtos, canais. Ao lado de cada item, escreva para quem serve e em que situação de uso ele é a melhor escolha disponível. Item sem resposta clara nas duas colunas não está pequeno, está sem lugar.
Depois defina quantas caixas você consegue atender bem com a equipe e o caixa que existem hoje. O número costuma ser menor do que a lista. A diferença entre os dois é exatamente o que precisa ser encerrado, e encerrar é o que libera atenção para o que fica.
Perguntas frequentes
Steve Jobs foi realmente demitido da Apple?
O registro corporativo mostra duas etapas. Em maio de 1985 o conselho apoiou John Sculley e retirou de Jobs as funções operacionais, deixando-o sem equipe e sem projeto. Em setembro do mesmo ano ele pediu demissão por conta própria e vendeu quase todas as ações. Ele mesmo descrevia o episódio como demissão, e é a origem da frase que virou lenda.
Por que Steve Jobs saiu da Apple em 1985?
Pela combinação de vendas do Macintosh abaixo do esperado e conflito aberto com Sculley sobre o comando da empresa. Jobs articulou nos bastidores uma reorganização que o devolveria ao poder, o plano vazou, e o conselho foi chamado a escolher entre os dois executivos.
O que Steve Jobs fez entre 1985 e 1997?
Fundou a NeXT, fabricante de estações de trabalho cujo sistema operacional viraria a base do Mac OS X, e comprou da Lucasfilm a divisão gráfica que se tornou a Pixar. O estúdio lançou Toy Story em 1995 e abriu o capital na mesma temporada, o que tornou Jobs bilionário no papel antes do retorno à Apple.
Como Steve Jobs voltou para a Apple?
Pela porta de uma aquisição. Em dezembro de 1996 a Apple comprou a NeXT por perto de 429 milhões de dólares para resolver a falta de um sistema operacional moderno. Jobs voltou junto com o negócio, primeiro como consultor e, em setembro de 1997, como presidente executivo interino.
O que Steve Jobs fez para salvar a Apple?
Cortou a linha de produtos usando um quadro de quatro caixas, encerrou o programa de clones do Mac e o Newton, fechou com a Microsoft um acordo com investimento de 150 milhões de dólares e compromisso de manter o Office no Mac, e lançou o iMac em 1998. A empresa voltou ao lucro no mesmo ano fiscal.
Quando Steve Jobs morreu?
Em 5 de outubro de 2011, aos 56 anos, em Palo Alto, na Califórnia, em decorrência de um tumor neuroendócrino no pâncreas diagnosticado em 2003. Ele havia deixado o cargo de presidente executivo seis semanas antes, substituído por Tim Cook.
Veja também
Nelson Mandela: 27 anos preso, saiu para presidir o país que o prendeu
Nikola Tesla: iluminou o mundo e morreu devendo aluguel num hotel
A próxima história já está sendo desenterrada
Receba a próxima no seu email. Uma história por dia, às 09:09. Gratuito.
1 email/dia · 4 min · Cancele quando quiser