História real · Stephen King · 1947-

Stephen King: as páginas de Carrie que ele jogou no lixo

Hermon, Maine, Estados Unidos · Leitura de 6 minutos

Ilustração de páginas amassadas sendo alisadas sobre uma mesa dentro de um trailer apertado

Quem foi Stephen King antes da fama

Início dos anos 1970, em Hermon, no estado do Maine. O trailer tem dois quartos, paredes finas e um cheiro de mofo que nunca sai. Mora ali um casal com dois filhos pequenos. Ele dá aulas de inglês numa escola pública por um salário que mal cobre o aluguel. Ela trabalha num turno na Dunkin' Donuts. O telefone foi cortado porque não dava para pagar a conta.

Stephen King tem vinte e poucos anos e escreve à noite, depois de corrigir provas, numa escrivaninha encaixada na área de serviço, entre a máquina de lavar e a secadora. Vende contos para revistas baratas quando consegue, cinquenta dólares aqui, duzentos ali, dinheiro que some no mesmo dia em remédio das crianças e conserto do carro.

Hoje Stephen King é o nome mais vendido do horror, com mais de trezentos e cinquenta milhões de livros no mundo. A distância entre o professor sem dinheiro e o autor lido em todas as línguas coube num gesto de dois segundos: amassar três páginas e jogá-las no lixo.

As três páginas de Carrie que Stephen King jogou fora

Numa dessas noites, King começa um conto sobre uma garota do colégio, humilhada no vestiário, que descobre ter poderes telecinéticos. Escreve três páginas. Relê e não gosta. A protagonista é uma menina, um terreno que ele acha que não domina. A história lhe parece morna, sem futuro, perda de tempo que ele não tem. Amassa as folhas e joga no cesto.

O cesto de lixo não era uma metáfora. Era o estado das coisas. King bebia para aguentar a rotina, ensinava de dia, escrevia de madrugada e via as contas se acumularem sem nenhuma evidência de que aquilo um dia daria certo. Tinha uma gaveta cheia de cartas de recusa espetadas num prego na parede. Quando o prego não suportou mais o peso, ele trocou por um espigão maior e continuou pendurando recusas.

A ideia de ser escritor profissional parecia, àquela altura, uma piada particular que a realidade contava à custa dele. O conto da garota do vestiário era só mais uma coisa que não tinha dado certo, recolhida ao lixo junto com o resto.

A linha do tempo de Stephen King

  1. 1947Stephen King nasce em Portland, no Maine.
  2. Início dos anos 1970Professor de inglês, mora num trailer em Hermon e escreve à noite entre a lavadora e a secadora.
  3. 1971Começa e abandona as primeiras páginas de Carrie, jogando-as no lixo. A esposa, Tabitha, resgata o papel.
  4. 1973Depois de cerca de trinta recusas, a Doubleday aceita o manuscrito e envia um telegrama com um adiantamento de dois mil e quinhentos dólares.
  5. 1974Carrie é publicado. Os direitos da edição de bolso são vendidos por quatrocentos mil dólares, e King larga a escola.
  6. 1976Carrie vira filme e abre uma carreira sem paralelo no gênero de horror.

Uma história como esta, todo dia às 09:09

Queda e Triunfo desenterra uma história real de queda e reconstrução por dia. Gratuito, por email.

+1.206 leitores já recebem

1 email/dia · 4 min · Cancele quando quiser

Como Tabitha salvou o manuscrito de Stephen King

Foi a esposa, Tabitha, quem mexeu no cesto. Ela tirou as três páginas amassadas, alisou o papel sobre a mesa, leu, e disse que ali tinha alguma coisa. Que ele devia continuar. Quando ele respondeu que não sabia escrever do ponto de vista de uma adolescente, que não conhecia aquele universo de meninas, ela ofereceu o que faltava: ela conhecia, e o ajudaria com os detalhes.

King voltou à escrivaninha e terminou a história. Virou um romance curto. Mandou o manuscrito de Carrie para uma editora, e para outra, e para outra. Foi recusado por cerca de trinta delas. Uma das cartas trazia a frase que ele guardaria a vida inteira: não estamos interessados em ficção que trata de utopias negativas, ela não vende.

A trigésima e tantas tentativa caiu na mesa de um editor da Doubleday chamado Bill Thompson. Ele viu o que Tabitha tinha visto no cesto de lixo.

O triunfo que fez de Stephen King o rei do horror

O telefone do trailer continuava cortado, então a Doubleday mandou um telegrama oferecendo um adiantamento de dois mil e quinhentos dólares por Carrie. Para um professor que contava moedas, era uma fortuna e uma absolvição ao mesmo tempo.

O dinheiro grande veio depois. Os direitos da edição de bolso foram vendidos por quatrocentos mil dólares, metade para o autor. King recebeu a notícia num Dia das Mães e a primeira coisa que fez foi comprar um secador de cabelo para Tabitha, porque era o presente que conseguia imaginar naquele instante de vertigem. Largou a escola e nunca mais corrigiu uma prova.

Carrie saiu em 1974 e virou filme dois anos depois. Vieram O Iluminado, A Coisa, À Espera de um Milagre e dezenas de outros. Mais de trezentos e cinquenta milhões de livros vendidos. E ele nunca escondeu a origem de tudo: as primeiras páginas de Carrie estavam no lixo, e quem as tirou de lá foi a mulher dele.

Perguntas frequentes

Stephen King realmente jogou Carrie no lixo?

Sim. No início dos anos 1970, ele escreveu as primeiras três páginas do conto que viraria Carrie, não gostou do resultado, amassou o papel e o jogou no cesto de lixo. Sua esposa, Tabitha, recuperou as folhas, leu e o convenceu a continuar a história.

Quantas vezes Carrie foi recusado pelas editoras?

O manuscrito de Carrie foi recusado por cerca de trinta editoras antes de ser aceito pela Doubleday. Stephen King guardava as cartas de recusa espetadas num prego na parede do trailer onde morava.

Qual foi o primeiro livro publicado de Stephen King?

Carrie, publicado em 1974, foi o primeiro romance de Stephen King a chegar às livrarias. O sucesso da edição de bolso e da adaptação para o cinema em 1976 abriu sua carreira como o autor mais vendido do gênero de horror.

A próxima história já está sendo desenterrada

Receba a próxima no seu email. Uma história por dia, às 09:09. Gratuito.

+1.206 leitores já recebem

1 email/dia · 4 min · Cancele quando quiser