História real · J.K. Rowling · 1965-

J.K. Rowling: as doze editoras que recusaram Harry Potter antes do sucesso

Edimburgo, Escócia · Leitura de 10 minutos

Ilustração de uma mulher escrevendo num caderno na mesa de um café de Edimburgo

Um manuscrito infantil de mais de 90 mil palavras, datilografado em máquina manual por uma mãe solo que vivia de auxílio do governo britânico, foi recusado por doze editoras antes de a décima terceira pagar 1.500 libras por ele. A tiragem inicial foi de 500 exemplares.

A história costuma ser contada como prova de persistência. O caso rende mais quando se olha o caminho que o pacote percorreu: quem lê um original numa agência literária, quem decide numa editora e por que 500 exemplares era o normal, não o insulto.

Este guia percorre o registro: o mercado editorial britânico daquele momento, a contagem das recusas, a leitora de oito anos que fechou a compra, o adiantamento, as iniciais na capa e os mitos que grudaram no caso.

Quem é J.K. Rowling

Joanne Rowling nasceu em 31 de julho de 1965 em Yate, no oeste da Inglaterra. Formou-se em francês e estudos clássicos na Universidade de Exeter e trabalhou como secretária bilíngue antes de ir dar aulas de inglês no Porto, em Portugal.

A ideia de um menino que descobre ser bruxo surgiu em 1990, durante o atraso de um trem entre Manchester e a estação londrina de King's Cross. No fim daquele ano, a mãe dela, Anne, morreu de esclerose múltipla aos 45 anos, perda que ela sempre apontou como o material emocional da orfandade do personagem.

Casou-se em Portugal em 1992, teve a filha Jessica em 1993 e se separou meses depois. Voltou para Edimburgo em dezembro de 1993 com a filha, três capítulos numa mala e sem emprego, passando a viver do benefício social britânico, algo em torno de 70 libras por semana.

Como um manuscrito chegava a uma editora britânica nos anos 1990

Vale entender o percurso, porque ele explica por que tantas portas fecham antes de qualquer editor ler o texto. No mercado britânico da época, editora grande praticamente não aceitava original enviado direto pelo autor. O caminho passava por uma agência literária.

Dentro da agência, o primeiro leitor raramente é o agente titular. É um funcionário júnior que abre a correspondência do dia e separa o que vale subir. A pilha de descarte é o destino padrão.

Foi nessa etapa que o caso quase morreu. O original chegou à agência de Christopher Little, em Londres, e uma funcionária, Bryony Evens, o resgatou da pilha de recusa, atraída pela apresentação do pacote e pelas ilustrações da autora. Ela leu, gostou e pediu o restante do texto.

Só a partir daí o agente passou a oferecer o livro às editoras. Ou seja, as doze recusas famosas aconteceram já com representação profissional por trás, e não numa remessa amadora enviada por correio.

Linha do tempo de J.K. Rowling

  1. 1965Nasce em Yate, no condado de Gloucestershire, na Inglaterra.
  2. 1990Tem a ideia da história durante o atraso de um trem para Londres.
  3. Dezembro de 1990A mãe dela morre de esclerose múltipla, aos 45 anos.
  4. 1991 e 1992Dá aulas de inglês no Porto e se casa em Portugal.
  5. 1993Nasce a filha Jessica, e ela volta a Edimburgo com três capítulos na mala.
  6. 1994 e 1995Escreve nos cafés da cidade enquanto vive do benefício social.
  7. 1995Termina o manuscrito datilografado e o envia à agência de Christopher Little.
  8. 1996Recebe uma bolsa de 8 mil libras do conselho de artes da Escócia para concluir o trabalho.
  9. Agosto de 1996A editora Bloomsbury aceita o livro e oferece adiantamento de 1.500 libras.
  10. 26 de junho de 1997Harry Potter e a Pedra Filosofal chega às livrarias, com tiragem inicial de 500 exemplares.
  11. 1997A americana Scholastic compra os direitos nos Estados Unidos em leilão, por 105 mil dólares.
  12. 2007Sai o sétimo e último livro da série.

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As doze recusas: o que é registro e o que é contagem da autora

O número doze vem da própria Rowling, repetido em entrevistas ao longo de décadas. Não existe um arquivo público com as doze cartas, e os nomes das editoras nunca foram todos confirmados.

As objeções relatadas se repetem em torno de três pontos, e são objeções de mercado, não de gosto: o texto era longo demais para o público infantil daquele momento, o tema não parecia comercial e livro infantil de estreante não costumava justificar investimento.

O contexto reforça a leitura. Em meados dos anos 1990, o segmento infantil britânico vendia sobretudo série curta e barata, com títulos de 40 a 60 mil palavras. Um original de tamanho quase adulto, com estreante desconhecida, era risco fora do padrão de catálogo.

A recusa, portanto, não foi cegueira coletiva de doze editores incompetentes. Foi a leitura correta do mercado que existia, aplicada a um livro que criaria um mercado diferente.

Vale guardar a distinção, porque ela muda o que se faz com uma recusa. Editor recusando por gosto pessoal é loteria, e a resposta é insistir com o próximo endereço. Editor recusando por critério de catálogo está informando o formato que a casa dele compra, e a resposta é procurar a casa cujo catálogo aceita o que você escreveu, que foi exatamente o que o agente fez ao chegar à Bloomsbury.

A criança de oito anos que decidiu a compra

A Bloomsbury era, em 1996, uma casa relativamente pequena e disposta a apostas fora do catálogo padrão. O editor infantil Barry Cunningham gostou do texto, e o presidente da editora, Nigel Newton, levou o primeiro capítulo para casa.

Ele entregou as páginas à filha Alice, de oito anos. A menina leu e voltou pedindo o resto, e essa reação é citada pela própria editora como o fator que destravou a decisão.

O detalhe é mais do que anedota simpática. Numa aquisição de livro infantil, o comprador do produto é o adulto e o consumidor é a criança, e as duas avaliações divergem com frequência. A Bloomsbury testou o texto no consumidor final antes de assinar, coisa que as doze anteriores não fizeram.

Mil e quinhentas libras e quinhentos exemplares

O adiantamento oferecido foi de 1.500 libras. Aparece em algumas reportagens como 2.500, e o valor mais citado por Cunningham e pela editora é o primeiro, o que mantém a informação numa faixa entre esses dois números.

A tiragem inicial foi de 500 exemplares, com perto de 300 destinados a bibliotecas. Não era desprezo: era o padrão de lançamento de autor infantil estreante numa editora média britânica daquele período.

Cunningham recomendou à autora que arrumasse um emprego fixo, porque livro infantil não sustentava ninguém. O conselho estava correto para a média do mercado, e errado para aquele caso específico.

O que mudou a escala foi o boca a boca entre leitores, seguido do leilão americano de 1997, quando a Scholastic pagou 105 mil dólares pelos direitos nos Estados Unidos, valor extraordinário para estreante no segmento.

Os prêmios vieram no mesmo ano do lançamento, com o Nestlé Smarties de ouro, categoria decidida por júri de crianças. A sequência ajuda a entender o mecanismo: a editora testou o texto numa leitora de oito anos, o prêmio confirmou o teste com centenas delas, e a partir daí o livro deixou de depender de vitrine de livraria para circular.

A série fechou em sete títulos, publicados entre 1997 e 2007, com vendas somadas acima de 500 milhões de exemplares e tradução para mais de 80 idiomas. É a distância entre a tiragem de 500 e o catálogo mundial, percorrida em uma década.

As iniciais na capa, uma decisão comercial

A autora assina J.K. Rowling por sugestão da editora. O receio declarado era que meninos de dez anos evitassem um livro de aventura assinado por uma mulher.

Ela não tinha nome do meio. O K foi tirado de Kathleen, nome da avó paterna, adotado só para compor as iniciais.

A escolha diz muito sobre o mercado que recusou o livro doze vezes: ele projetava um público que não existia ainda daquele tamanho e presumia que a autora precisava se esconder para alcançá-lo.

Três erros comuns sobre a história de Harry Potter

O primeiro é o café. A vitrine do The Elephant House anuncia o local como berço da série, e Rowling já explicou que escreveu em vários cafés de Edimburgo, com destaque para o Nicolson's, que pertencia ao cunhado dela. O ponto turístico é real; a exclusividade, não.

O segundo é a pobreza extrema. Ela viveu de benefício social e passou aperto documentado, com depressão clínica no período, e nunca esteve em situação de rua, ao contrário do que a versão inflada costuma sugerir. Em 1996 recebeu ainda uma bolsa de 8 mil libras do conselho de artes escocês para terminar o livro.

O terceiro é usar o caso como prova de que basta insistir com qualquer texto. O manuscrito passou por agente profissional, chegou às editoras com representação, e a aceitação veio de uma casa que testou o material no leitor final. Foram três decisões de processo, não teimosia solta.

O exercício do leitor certo

O caso deixa um procedimento aplicável a quem tenta emplacar qualquer trabalho, e ele é o oposto de bater na mesma porta.

Primeiro, identifique quem de fato decide. Numa editora era o editor de catálogo, e quem destravou foi uma leitora de oito anos. Em quase todo mercado existe esse par: quem assina o cheque e quem consome o produto.

Segundo, leve o trabalho ao consumidor final antes de pedir a decisão. Uma reação observada vale mais que qualquer argumento de venda, e é barata de obter.

Terceiro, registre a objeção de cada recusa. As doze respostas apontavam para o mesmo diagnóstico, tamanho e categoria, e um diagnóstico repetido é informação de mercado, não veredito sobre o valor do que você fez.

Perguntas frequentes

Quantas editoras recusaram Harry Potter?

Doze, segundo a própria autora, contagem repetida por ela em entrevistas ao longo dos anos. Não há arquivo público com as cartas, e os nomes das doze casas nunca foram todos confirmados. A décima terceira, a Bloomsbury, aceitou o livro em agosto de 1996.

Quanto a Bloomsbury pagou pelo primeiro Harry Potter?

O adiantamento mais citado pela editora e pelo editor Barry Cunningham é de 1.500 libras, valor que aparece em algumas reportagens como 2.500. A tiragem inicial foi de 500 exemplares, dos quais cerca de 300 foram para bibliotecas, padrão de lançamento de autor infantil estreante no Reino Unido daquele período.

Quem convenceu a Bloomsbury a publicar Harry Potter?

Alice Newton, filha de oito anos do presidente da editora, Nigel Newton. Ele levou o primeiro capítulo para casa, ela leu e pediu o restante da história. A reação da menina é citada pela própria editora como o fator que destravou a compra dos direitos.

J.K. Rowling era pobre quando escreveu Harry Potter?

Ela vivia do benefício social britânico em Edimburgo, algo em torno de 70 libras por semana, criando sozinha uma filha pequena e tratando um quadro de depressão clínica. Nunca esteve em situação de rua. Em 1996 recebeu uma bolsa de 8 mil libras do conselho de artes da Escócia para concluir o manuscrito.

Onde J.K. Rowling escreveu Harry Potter?

Em cafés de Edimburgo e em casa. O Nicolson's, que pertencia ao cunhado dela, é o mais citado pela própria autora. O The Elephant House se anuncia como berço da série e virou ponto turístico, embora ela já tenha esclarecido que escreveu em vários lugares da cidade.

Por que ela assina J.K. Rowling?

Por sugestão da editora, que temia afastar leitores meninos de um livro de aventura assinado por uma mulher. Como não tinha nome do meio, ela adotou o K de Kathleen, nome da avó paterna, apenas para compor as iniciais na capa.

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