História real · Niki Lauda · 1949-2019

Niki Lauda: o acidente na Ferrari em chamas e a volta às pistas em 42 dias

Nürburgring, Alemanha · Leitura de 10 minutos

Ilustração de um carro de Fórmula 1 em chamas na floresta do circuito de Nürburgring

Em 1º de agosto de 1976, na segunda volta do Grande Prêmio da Alemanha, a Ferrari de Niki Lauda saiu de pista, bateu no talude e pegou fogo com o piloto preso dentro. Ele recebeu a extrema-unção no hospital. Quarenta e dois dias depois estava no grid de Monza.

O retorno virou símbolo de coragem, e a palavra esconde a parte mais interessante do caso, que é médica e de engenharia de circuito.

Este guia percorre o registro: por que a queimadura não foi a lesão mais grave, o que havia de errado com aquele traçado de 22,8 quilômetros, o que aconteceu nos 42 dias, por que ele desistiu no Japão e o que segue em aberto sobre a causa da batida.

Quem foi Niki Lauda

Andreas Nikolaus Lauda nasceu em 22 de fevereiro de 1949, em Viena, numa família rica do ramo de papel que se opôs à carreira dele nas pistas. Sem apoio familiar, tomou empréstimos bancários dando como garantia uma apólice de seguro de vida, e comprou o próprio lugar nas equipes.

Chegou à Fórmula 1 em 1971 pela March, passou pela BRM e foi contratado pela Ferrari em 1974. Ganhou o campeonato mundial em 1975 e liderava com folga a temporada de 1976 quando o acidente aconteceu.

O apelido no paddock era computador, por causa do método: ele media, anotava e descrevia o comportamento do carro em linguagem técnica precisa, capacidade rara entre pilotos daquele período e valiosa para os engenheiros da Ferrari.

O que o fogo faz ao pulmão, e por que a queimadura não foi o pior

As imagens do acidente mostram queimaduras no rosto e na cabeça, agravadas pelo capacete ter saído com o impacto. Essas lesões são as visíveis, e não foram as que quase o mataram.

O dano decisivo foi por inalação. Num incêndio de combustível dentro de um cockpit fechado, o piloto respira gás a centenas de graus junto com produtos da queima de resina, tinta e material sintético da carroceria. O gás quente lesiona a via aérea superior, e os compostos tóxicos atravessam a barreira do pulmão e chegam ao sangue.

O quadro clínico que se instala é lesão pulmonar aguda com insuficiência respiratória, tipicamente com piora ao longo das primeiras 24 a 72 horas, exatamente o período em que os médicos alemães falavam em quadro terminal e um padre foi chamado para dar a extrema-unção.

É por essa razão que os quatro pilotos que pararam para retirá-lo do carro, Arturo Merzario, Guy Edwards, Brett Lunger e Harald Ertl, salvaram a vida dele. Cada segundo dentro daquele cockpit era dose adicional inalada, e a variável que mais pesa no desfecho é o tempo de exposição.

Linha do tempo de Niki Lauda

  1. 1949Nasce em Viena, na Áustria.
  2. 1971Estreia na Fórmula 1 pela March, com o lugar comprado por empréstimo bancário.
  3. 1974É contratado pela Ferrari.
  4. 1975Conquista o primeiro título mundial.
  5. Julho de 1976Propõe aos pilotos o boicote ao circuito de Nürburgring, e a votação rejeita a proposta.
  6. 1º de agosto de 1976Sofre o acidente na segunda volta do Grande Prêmio da Alemanha.
  7. 12 de setembro de 1976Volta a correr em Monza, 42 dias depois, e termina em quarto lugar.
  8. 24 de outubro de 1976Abandona o Grande Prêmio do Japão sob chuva forte e perde o título por um ponto.
  9. 1977É campeão mundial pela segunda vez e deixa a Ferrari.
  10. 1979Encerra a carreira no meio da temporada para tocar a companhia aérea que fundou.
  11. 1982Volta às pistas pela McLaren.
  12. 1984Conquista o terceiro título, com margem de meio ponto sobre Alain Prost.
  13. 20 de maio de 2019Morre em Zurique, aos 70 anos.

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Nürburgring Nordschleife: 22,8 km e a votação do boicote

O traçado antigo de Nürburgring, o Nordschleife, tem 22,835 quilômetros e mais de 170 curvas, cortando a floresta de Eifel com desnível de trezentos metros entre o ponto mais alto e o mais baixo.

O problema não era a dificuldade, era a cobertura. Um circuito de Fórmula 1 moderno tem entre 4 e 7 quilômetros, com fiscais, bombeiros e ambulância a poucas centenas de metros de qualquer ponto. Num traçado quatro vezes maior, os mesmos recursos ficam esticados, e há trechos onde o socorro leva minutos para chegar.

Lauda fez esse cálculo em voz alta e propôs aos colegas o boicote da prova de 1976. A votação dos pilotos rejeitou a proposta, e ele alinhou o carro assim mesmo.

O acidente aconteceu perto do trecho de Bergwerk, e a prova de que o argumento estava correto veio na sequência: não havia carro de resgate por perto, e quem tirou o piloto do fogo foram os concorrentes que vinham atrás. Aquela foi a última corrida de Fórmula 1 disputada no Nordschleife.

Os 42 dias entre o barranco e Monza

O intervalo entre o acidente e o retorno é curto ao ponto de parecer erro de digitação. Ele passou os primeiros dias em estado grave, com tratamento das queimaduras e sucessivas aspirações pulmonares para retirar a fuligem depositada nas vias aéreas, procedimento descrito por ele como a parte mais dura da internação.

A Ferrari já se movia para substituí-lo, com Carlos Reutemann contratado durante a ausência. A pressão do calendário era real: o rival James Hunt encurtava a diferença na tabela a cada prova em que Lauda não pontuava.

Ele voltou no Grande Prêmio da Itália, em Monza, no dia 12 de setembro, com curativos sob a balaclava e o couro cabeludo ainda em carne viva. Terminou em quarto lugar, e ao tirar o capacete o tecido saiu grudado e ensanguentado.

O ponto que costuma passar batido é o custo técnico. Ele voltou sem pálpebra completa do lado direito, com dificuldade de lubrificação do olho e de piscar em alta velocidade, limitação que o acompanharia pelo resto da carreira.

A desistência em Fuji e o título perdido por um ponto

A decisão que define o personagem não é a volta em Monza. É a parada no Japão.

Em 24 de outubro de 1976, no circuito de Fuji, a corrida começou sob chuva torrencial, com spray que reduzia a visibilidade a poucos metros. Lauda completou duas voltas, entrou nos boxes e desistiu, declarando que a vida dele valia mais que um campeonato.

James Hunt terminou em terceiro e ficou com o título por um ponto, 69 a 68. Foi a diferença mais apertada de uma temporada até então, e o próprio Lauda nunca se descreveu como arrependido da escolha.

A sequência fecha o argumento: ele foi campeão mundial no ano seguinte, em 1977, e depois em 1984, na McLaren, com vantagem de meio ponto sobre o companheiro de equipe Alain Prost, a menor margem da história da categoria.

O que segue em disputa sobre a causa do acidente

A investigação nunca fechou uma causa. As duas hipóteses principais são falha de suspensão traseira e perda de pressão de um pneu, e nenhuma foi comprovada, porque o carro queimou quase por completo.

Lauda sustentou a versão da suspensão. Análises posteriores apontam que a Ferrari 312T2 daquele fim de semana havia recebido ajustes e que o traçado, com quebra-molas naturais e saltos, impunha carga extrema aos componentes.

Há ainda um fator agravante independente da causa: o capacete saiu da cabeça durante a batida. O modelo daquele momento não tinha o sistema de retenção dos capacetes atuais, e a exposição direta ao fogo explica a gravidade das queimaduras faciais.

Três erros comuns sobre a volta de Niki Lauda

O primeiro é dizer que ele voltou curado. Ele voltou com feridas abertas, sequela ocular permanente e função pulmonar reduzida, e conviveu com essas limitações pelo resto da carreira.

O segundo é tratar a rivalidade com James Hunt pelo roteiro do cinema. O filme de 2013 comprime episódios e inventa diálogos, e os dois pilotos mantinham relação cordial fora da pista, tendo dividido casa no início das carreiras. Lauda participou da produção e apontou publicamente as liberdades tomadas.

O terceiro é resumir a biografia dele a 1976. Depois das pistas ele fundou duas companhias aéreas, investigou pessoalmente a queda do voo Lauda Air 004 na Tailândia em 1991, com 223 mortos, e presidiu o conselho da equipe Mercedes na Fórmula 1 a partir de 2012. Recebeu dois transplantes de rim e um de pulmão, em 2018.

O exercício do risco declarado

O caso rende um procedimento aplicável a qualquer decisão que envolva risco de perda grave, e ele tem duas metades que parecem contraditórias.

Primeiro, declare o risco antes do evento, em voz alta e para quem decide. Lauda apresentou aos colegas o argumento sobre a cobertura de socorro do circuito antes da prova, e perdeu a votação. Argumento registrado antes muda a discussão depois, e foi por causa dele que o Nordschleife saiu do calendário.

Segundo, separe o risco que você aceita do risco que não depende de você. Ele voltou a correr em 42 dias porque avaliou que a dor era administrável, e desistiu no Japão porque a visibilidade tirava dele o controle sobre o resultado. Coragem, no vocabulário dele, era a avaliação fria de quanto vale cada risco, não a disposição de encarar todos.

E aceite o custo visível. Ele recusou cirurgias plásticas além do necessário para a função da pálpebra e passou a usar boné em público. Tratar a cicatriz como parte do equipamento de trabalho encerra a discussão mais rápido que escondê-la.

Perguntas frequentes

O que aconteceu no acidente de Niki Lauda em 1976?

Na segunda volta do Grande Prêmio da Alemanha, em 1º de agosto de 1976, a Ferrari dele saiu de pista perto do trecho de Bergwerk, no circuito de Nürburgring, bateu no talude, voltou à pista em chamas e foi atingida por outro carro. O capacete saiu com o impacto. Quatro pilotos pararam e o retiraram do cockpit em chamas.

Quais foram os ferimentos de Niki Lauda?

Queimaduras graves no rosto e no couro cabeludo e, principalmente, lesão pulmonar por inalação de gases quentes e tóxicos do incêndio, com intoxicação do sangue e coma. A lesão respiratória foi a que colocou a vida dele em risco, e um padre chegou a administrar a extrema-unção no hospital.

Quanto tempo Niki Lauda ficou fora depois do acidente?

Quarenta e dois dias. O acidente foi em 1º de agosto de 1976 e ele voltou a correr em 12 de setembro, no Grande Prêmio da Itália, em Monza, onde terminou em quarto lugar com os curativos ainda sangrando sob o capacete.

Por que Niki Lauda desistiu do Grande Prêmio do Japão?

Por causa da chuva torrencial em Fuji, em 24 de outubro de 1976, que reduzia a visibilidade a poucos metros. Ele completou duas voltas, parou nos boxes e abandonou, dizendo que a própria vida valia mais que um título. James Hunt terminou em terceiro e ficou com o campeonato por um ponto de diferença.

O que causou o acidente de Niki Lauda?

Nunca foi estabelecido com certeza, porque o carro queimou quase inteiro. As duas hipóteses principais são falha na suspensão traseira, versão sustentada pelo próprio piloto, e perda de pressão de um pneu. Nenhuma das duas chegou a ser comprovada por perícia.

Niki Lauda voltou a ser campeão depois do acidente?

Sim, duas vezes. Foi campeão mundial em 1977, ainda pela Ferrari, e em 1984 pela McLaren, com vantagem de meio ponto sobre Alain Prost, a menor margem já registrada na Fórmula 1. Ele havia sido campeão pela primeira vez em 1975.

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