História real · Vincent van Gogh · 1853-1890

Van Gogh: o pintor mais cobiçado do mundo vendeu uma só tela em vida

Auvers-sur-Oise, França · Leitura de 10 minutos

Ilustração de Vincent van Gogh diante de um campo de trigo sob céu em espirais

Vincent van Gogh pintou durante dez anos, deixou cerca de 860 telas a óleo e morreu aos 37 anos convencido de que tinha desperdiçado o próprio tempo e o dinheiro do irmão. Três décadas depois, museus da Europa disputavam as mesmas telas que ninguém quisera comprar.

A frase que resume a história é conhecida: ele vendeu um único quadro em vida. O registro guardado pelo Museu Van Gogh é um pouco mais interessante que a frase, e a diferença entre os dois é o assunto deste guia.

Aqui está o que sustenta o caso: como funcionava o mercado que o ignorou, quanto dinheiro saiu do bolso de Theo, o que está documentado sobre a orelha e sobre a morte, e quem fez o triunfo póstumo acontecer.

Quem foi Vincent van Gogh

Vincent Willem van Gogh nasceu em 30 de março de 1853 em Groot-Zundert, no sul dos Países Baixos, filho mais velho de um pastor protestante. Antes de pegar num pincel para valer, perdeu quase todos os caminhos que a família abriu.

Trabalhou nas filiais da casa de arte Goupil, em Haia, Londres e Paris, e foi dispensado. Deu aulas na Inglaterra sem salário fixo. Estudou para o ministério religioso e não passou. Foi pregador leigo entre os mineiros de carvão do Borinage, na Bélgica, onde distribuiu as próprias roupas e dormiu no chão, até a comissão da igreja afastá-lo por excesso de zelo.

Só aos 27 anos, derrotado em cada tentativa, decidiu desenhar a sério. Morreu dez anos depois, em 29 de julho de 1890, num quarto alugado em Auvers-sur-Oise, com um ferimento de bala no tronco. No intervalo produziu cerca de 2.100 obras, entre elas por volta de 860 pinturas a óleo, quase todas nos cinco anos finais.

Como funcionava o mercado que não comprava Van Gogh

A pergunta útil não é por que ele não vendia. É por onde uma tela precisava passar para ser vendida na França dos anos 1880. Havia três portas, e ele não entrou em nenhuma.

A primeira era o Salon oficial de Paris, júri anual que dava carimbo de artista. A segunda era o marchand: uma casa como a Goupil, onde Theo trabalhava, comprava a produção de um pintor da casa e a empurrava para uma clientela fiel de burgueses. A terceira era o retrato por encomenda, ganha-pão da maioria dos pintores em atividade.

Vincent não passou por júri, não tinha clientela e quase não pintou encomenda. O gosto dominante daquele momento pedia acabamento liso, tema reconhecível e superfície discreta. Ele entregava tinta empastada em camada grossa, sombra colorida e pincelada visível, o oposto do que o comprador pendurava na sala de visitas.

Theo, gerente de uma filial da Boussod, Valadon e Cia, sucessora da Goupil, tinha margem estreita. Insistir na vitrine com um irmão desconhecido arriscava o próprio emprego, que era a única renda dos dois. A obra ficou empilhada no apartamento dele, em Montmartre.

Linha do tempo de Van Gogh

  1. 1853Nasce em Groot-Zundert, nos Países Baixos, primeiro filho de um pastor protestante.
  2. 1869 a 1876Trabalha na casa de arte Goupil, em Haia, Londres e Paris, e acaba dispensado.
  3. 1878 a 1879Prega entre os mineiros do Borinage, na Bélgica, e perde o posto por excesso de zelo.
  4. 1880Aos 27 anos, decide se tornar artista.
  5. 1886Muda-se para Paris, mora com Theo e encontra a cor dos impressionistas.
  6. Fevereiro de 1888Instala-se em Arles e vive o período mais produtivo da carreira.
  7. 23 de dezembro de 1888Depois de semanas de convívio tenso com Paul Gauguin, corta a própria orelha esquerda.
  8. Maio de 1889Interna-se por vontade própria no asilo de Saint-Rémy, onde pinta A Noite Estrelada em junho.
  9. Janeiro de 1890O crítico Albert Aurier publica no Mercure de France o primeiro artigo elogioso sobre a obra dele.
  10. 29 de julho de 1890Morre em Auvers-sur-Oise, aos 37 anos.
  11. Janeiro de 1891Theo morre aos 33 anos, seis meses depois do irmão.
  12. 1905Johanna van Gogh-Bonger organiza em Amsterdã uma retrospectiva com centenas de obras.

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Quantos quadros Van Gogh vendeu em vida, segundo o registro

A venda sempre citada é uma: A Vinha Vermelha, comprada pela pintora belga Anna Boch por 400 francos, na mostra do grupo Les XX em Bruxelas, no início de 1890, poucos meses antes da morte do artista.

O Museu Van Gogh, que guarda o acervo e a correspondência, trata a frase "vendeu um único quadro" como simplificação. O registro mostra outras entradas de dinheiro por trabalho: em 1882 o tio Cornelis Marinus encomendou doze desenhos a bico de pena da cidade de Haia, pagou por eles e depois pediu mais seis.

A correção importa pelo motivo certo. Ele não foi um artista sem nenhuma transação. Foi um artista sem mercado. Nenhuma das entradas formou clientela, repetição ou preço, e são esses três itens que separam um pintor que vive do trabalho de um pintor sustentado pelo irmão.

Vale registrar o outro lado da mesma moeda. Em janeiro de 1890 saiu o primeiro texto crítico elogioso sobre ele, assinado por Albert Aurier no Mercure de France. O reconhecimento não estava em zero no dia da morte. Estava começando, com dez anos de atraso e seis meses de vida pela frente.

O dinheiro de Theo, em números

Theo van Gogh sustentou o irmão por dez anos com uma remessa mensal. A correspondência reunida pelo museu indica valores em torno de 150 francos por mês na maior parte do período, com altos e baixos conforme o salário dele apertava.

Serve de calibragem: os 400 francos da venda registrada equivalem a perto de dois ou três meses de mesada. Todo o resto, tinta, tela, aluguel, comida, modelo, remédio e viagem, saiu do bolso de um funcionário de casa de arte com esposa e filho recém-nascido.

A relação inteira existe por escrito. Sobreviveram mais de 900 cartas ligadas a Vincent, cerca de 820 escritas por ele, a maior parte endereçada a Theo. Quase nenhum pintor do século 19 deixou registro tão detalhado do que pintava, de quanto dinheiro dispunha e do que devia.

A orelha: o que está documentado e o que está em disputa

Documentado: na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, depois de semanas de convívio tenso com Paul Gauguin, Vincent feriu a própria orelha esquerda com uma navalha, entregou o pedaço cortado numa casa da cidade e foi encontrado sangrando no dia seguinte. A imprensa local noticiou o caso e ele foi internado no hospital de Arles.

Em disputa: quanto da orelha saiu. A versão tradicional fala em parte do lóbulo. Em 2016 a pesquisadora Bernadette Murphy publicou um desenho feito pelo médico que o atendeu, Félix Rey, indicando corte de quase toda a orelha. O Museu Van Gogh considerou o documento verossímil, e a discussão segue aberta.

Em disputa também: o motivo. As explicações concorrentes vão de crise psicótica compatível com epilepsia do lobo temporal a delírio ligado ao absinto, passando pelo abalo do anúncio de casamento de Theo, que ameaçava a mesada. Nenhuma tem diagnóstico fechado.

A morte em Auvers e as duas hipóteses

Em 27 de julho de 1890 Vincent voltou ferido de uma saída pelos campos de Auvers, com uma bala alojada no tronco. Morreu dois dias depois, com Theo ao lado da cama.

A leitura aceita há mais de um século é o suicídio. É o que dizem os primeiros relatos, o médico Paul Gachet e as cartas do próprio Theo.

A hipótese concorrente é recente. Em 2011 os biógrafos Steven Naifeh e Gregory White Smith sustentaram, em Van Gogh: The Life, que o tiro pode ter partido por acidente das mãos de um adolescente da região, René Secrétan, e que o pintor teria preferido não acusar ninguém. O Museu Van Gogh respondeu por escrito e mantém o suicídio como leitura mais provável.

Diante de uma manchete sobre o tema, a pergunta útil é sempre a mesma: qual documento novo entrou na mesa, e quem discorda dele.

Johanna van Gogh-Bonger, a engrenagem do triunfo póstumo

Theo morreu em janeiro de 1891, seis meses depois do irmão. A viúva dele, Johanna van Gogh-Bonger, ficou com um filho de um ano, centenas de telas invendáveis e um maço grosso de cartas.

O que ela fez com o acervo é o mecanismo real do triunfo, e some quase sempre da versão curta da história. Johanna recusou liquidar o lote, emprestou obras a exposições de forma constante, formou preço em vez de despejar quadro no mercado e organizou em 1905, em Amsterdã, uma retrospectiva com centenas de peças. Em 1914 publicou a correspondência entre os irmãos, e o público passou a ter a voz do pintor junto com a obra.

O efeito foi cumulativo. As cartas criaram o personagem, as exposições criaram a demanda, a demanda criou o preço. Em 1990 o Retrato do Doutor Gachet foi arrematado por 82,5 milhões de dólares, recorde mundial de leilão na época. O filho dela, Vincent Willem, levou o acervo da família ao Estado holandês, e o Museu Van Gogh abriu em Amsterdã em 1973.

Três erros comuns sobre a história de Van Gogh

O primeiro é tratar a obra como fruto direto da doença. A cronologia atrapalha: o período mais produtivo, em Arles, vem antes das internações, e durante as crises ele não conseguia trabalhar. A doença interrompeu a produção muito mais do que a alimentou.

O segundo é imaginar um amador que descobriu o dom sozinho. Ele copiou manuais de desenho, estudou anatomia e perspectiva com afinco, passou pela academia de Antuérpia e pelo ateliê de Fernand Cormon em Paris, e trocou correspondência técnica com pintores em atividade.

O terceiro é ler "morreu sem reconhecimento" como se o mundo fosse cego até 1890. Aurier tinha publicado o elogio, Monet e Gauguin comentavam a obra, e a tela vendida em Bruxelas saiu de uma mostra de vanguarda. O reconhecimento existia. Era pequeno demais para virar renda.

O exercício do relógio atrasado

A história rende mais como procedimento do que como moral. Juízo de mercado e qualidade de trabalho são medidas separadas, com relógios diferentes, e trocar uma pela outra sai caro nos dois sentidos.

Diante de um trabalho seu que não emplaca, três perguntas separam as medidas. Existe canal, ou seja, a obra chega a alguém com poder de comprar, contratar ou publicar? Existe repetição, já que uma venda isolada não é mercado e dez pequenas são? Existe registro do processo, do tipo que permita a outra pessoa reconstruir e defender o trabalho depois?

Se as três respostas forem não, o problema pode não estar na qualidade da obra. Van Gogh respondeu não às três por dez anos, e a única que ele resolveu sozinho foi a terceira: deixou 900 cartas, e foi por elas que o resto pôde ser remontado por quem veio depois.

Perguntas frequentes

Quantos quadros Van Gogh vendeu enquanto estava vivo?

A venda com registro claro é A Vinha Vermelha, adquirida pela pintora belga Anna Boch por 400 francos em Bruxelas, no início de 1890. O Museu Van Gogh trata o número "um" como simplificação: houve outras entradas de dinheiro por trabalho, como os desenhos de Haia encomendados e pagos pelo tio em 1882. O que nunca existiu foi mercado, com clientela e preço.

Por que Van Gogh cortou a própria orelha?

Em 23 de dezembro de 1888, em Arles, após semanas de convívio tenso com Paul Gauguin e uma crise grave, ele feriu a orelha esquerda com uma navalha. O motivo segue em disputa entre crise psicótica, quadro compatível com epilepsia do lobo temporal, efeito do álcool e o abalo do anúncio de casamento do irmão. Nenhuma explicação tem diagnóstico fechado.

Como Van Gogh morreu?

Ele foi atingido por um tiro no tronco em 27 de julho de 1890, em Auvers-sur-Oise, e morreu dois dias depois, aos 37 anos. A leitura tradicional é o suicídio. Desde 2011 há a hipótese concorrente de disparo acidental por um adolescente da região, levantada pelos biógrafos Steven Naifeh e Gregory White Smith e contestada pelo Museu Van Gogh.

Qual é o quadro mais famoso de Van Gogh?

A Noite Estrelada, pintada em junho de 1889 durante a internação no asilo de Saint-Rémy, é a obra mais reproduzida. Os Girassóis, o Quarto em Arles e os autorretratos completam o grupo mais conhecido, ao lado do Retrato do Doutor Gachet, que bateu recorde de leilão em 1990.

Quantas obras Van Gogh pintou?

O acervo catalogado gira em torno de 2.100 trabalhos, dos quais cerca de 860 são pinturas a óleo e o restante são desenhos, aquarelas e estudos. Quase tudo foi feito em dez anos de atividade, com a maior parte concentrada nos cinco anos finais.

Por que Van Gogh ficou famoso depois de morto?

Pelo trabalho de Johanna van Gogh-Bonger, viúva de Theo, que herdou as telas e as cartas. Ela emprestou obras a exposições durante décadas, organizou a grande retrospectiva de Amsterdã em 1905 e publicou a correspondência dos irmãos em 1914. As cartas criaram o personagem, as mostras criaram a demanda e a demanda formou o preço.

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