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Queda e Triunfo · A Reprovação do Cadete
Queda e Triunfo

A Queda do Dia

A Reprovação do Cadete

Reprovaram seu voo e disseram que ele não tinha perfil. Depois ele viu a Terra inteira do espaço.

 
 

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Queda e Triunfo

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Cadete baixo de costas diante de um biplano de treino numa pista de terra ao amanhecer
I

O Cadete Que Pousava Errado

 

Outono de 1955. Escola de aviação de Orenburg, sul dos Montes Urais, União Soviética.

A pista era de terra batida. O avião era um Yak-18, biplano de treino, e o cadete na cabine tinha vinte e um anos, baixa estatura e um sorriso que o instrutor já estava cansado de ver. O problema não era a coragem. Era o pouso.

Toda vez que descia, o nariz do avião apontava alto demais, a aproximação saía torta, a roda tocava o chão antes da hora.

Yuri Alekseyevich Gagarin vinha de uma aldeia chamada Klushino. Filho de carpinteiro e leiteira, tinha sobrevivido à ocupação nazista dormindo num barraco de barro enquanto soldados alemães ocupavam a casa da família. Estudara em escola técnica, virara operário de fundição, e só então descobrira o céu, num aeroclube de fim de semana.

Naquele outono, o instrutor reprovou Gagarin na avaliação de voo. A ficha foi clara: não demonstrava o perfil necessário para piloto militar. O sonho de voar terminava ali, numa pista de terra, com um carimbo de reprovação.

 
 
 
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II

A Queda

 

Gagarin não tinha plano B. Saíra de uma fundição para perseguir o céu, e o céu o estava devolvendo ao chão. Para um rapaz de aldeia sem padrinhos, sem dinheiro e sem sobrenome de peso, uma reprovação não era um tropeço. Era, com toda a probabilidade, o fim.

A causa do problema, descobriu-se depois, era física e quase humilhante. Gagarin tinha 1,57 metro de altura. Sentado na cabine do Yak-18, não enxergava a pista no ângulo certo na hora do pouso. Os olhos ficavam baixos demais em relação ao painel, e a aproximação que parecia certa para ele estava errada para o avião.

 

A solução foi modesta e nada heroica: um instrutor mandou que ele pousasse sentado sobre uma almofada. Um pedaço de pano dobrado, alguns centímetros a mais de altura, e de repente Gagarin via o que precisava ver. O pouso corrigiu.

~ A almofada de Orenburg

 

A reprovação foi revertida. Ele se formou em 1957, com louvor.

Por anos isso continuou sendo só uma anedota de quartel: o cadete baixinho que quase foi cortado por causa de uma almofada. Ninguém imaginava o que aquele detalhe estava prestes a significar para a história do planeta inteiro.

 
 
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III

O Triunfo

 

Quando a União Soviética começou a selecionar o primeiro grupo de cosmonautas, em 1960, os critérios eram inverosímeis. Pilotos de caça saudáveis, frios sob pressão, capazes de suportar centrifugadoras que empurravam o sangue para fora do cérebro.

E baixos: a cápsula Vostok era minúscula, e cada centímetro de altura era um problema de engenharia. O 1,57 metro que quase tirou Gagarin do céu virou exatamente a medida que o colocou dentro dele.

Entre vinte finalistas, Gagarin foi o escolhido. Os colegas o haviam apontado em uma votação anônima como aquele que mais gostariam de ver ir primeiro. Os engenheiros gostavam do sorriso, da calma, da origem operária que a propaganda soviética adorava. Sergei Korolev, o arquiteto secreto do programa espacial, simplesmente confiava nele.

 

Em 12 de abril de 1961, exatamente seis anos depois da reprovação de Orenburg, a cápsula Vostok 1 deixou o solo de Baikonur. Por 108 minutos, Yuri Gagarin foi o único ser humano vivo fora do planeta. Deu uma volta completa na Terra.

Foi o primeiro homem da espécie a ver o mundo inteiro de uma vez só, a curvatura azul recortada contra o preto absoluto.

 

"A Terra é azul", relatou pelo rádio, com uma simplicidade que percorreu o planeta. "Que maravilha. É espantoso."

 

Pousou de paraquedas num campo perto do rio Volga, assustando uma camponesa e a neta que pastoreavam um bezerro. Voltou como o homem mais famoso do mundo. Multidões em cada cidade, condecorações de governos rivais, um sorriso que virou símbolo de uma época.

O carpinteiro de Klushino tinha um filho que abrira a porta do espaço.

 
 
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IV

A Lição

 

Há uma distância curta e cruel entre "você não tem o perfil" e "você é exatamente o que procurávamos". Em Gagarin, essa distância coube em alguns centímetros e numa almofada dobrada. O mesmo corpo que o reprovou foi o que o aprovou. Nada nele mudou. Mudou o que estava sendo medido.

 

Antes de aceitar o veredito de que você não serve, vale perguntar se o defeito é seu ou apenas do banco em que te mandaram sentar.

 

Às vezes a correção não é virar outra pessoa. É só achar a almofada certa, e descobrir que aquilo que parecia te desqualificar era, o tempo todo, a sua medida exata.

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Verdadeiro ou Falso: o que quase reprovou Yuri Gagarin como piloto era sua baixa estatura, e foi esse mesmo 1,57 metro que o tornou ideal para caber na minúscula cápsula Vostok 1.

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