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Queda e Triunfo
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A Queda do Dia

Demitido Por Falta de Imaginação

Disseram que ele não tinha imaginação. Faliu o primeiro estúdio. Depois reinventou a animação.

 
 

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Jovem desenhista sozinho num escritório vazio e escuro, mesa de luz apagando, à beira do despejo
I

O Editor Disse Que Ele Não Tinha Imaginação

 

Início de 1919. Redação do Kansas City Star, Kansas City, Missouri, Estados Unidos.

Um rapaz de dezessete anos atravessou o saguão do jornal mais respeitado da cidade procurando trabalho de desenhista.

Voltara havia poucos meses da França, onde dirigira uma ambulância da Cruz Vermelha no fim da Primeira Guerra, jovem demais para o front, velho o bastante para ver o que a guerra fazia com um corpo. Tinha um caderno de esboços e a certeza de que sabia desenhar.

O jornal não o quis. Em outra redação da cidade, um editor foi mais cruel do que um simples "não". Disse ao garoto que ele faltava imaginação e boas ideias, e que não tinha futuro na arte. Aconselhou que procurasse outra coisa para fazer da vida.

O nome do rapaz era Walter Elias Disney. A frase ficaria pendurada sobre ele como uma sentença, e ele guardou cada palavra porque sabia, no fundo, que um dia ia provar o contrário.

 

Décadas mais tarde, quando já era o homem que tinha redesenhado a própria definição de imaginação no século XX, ainda contava o episódio. Não com mágoa. Com a precisão de quem nunca esqueceu o veredito por escrito.

 
 
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II

O Estúdio Que Quebrou e o Despejo

 

Disney não procurou outra coisa para fazer da vida. Arranjou trabalho fazendo anúncios e curtas publicitários em Kansas City, aprendeu sozinho os truques da animação quadro a quadro lendo livros emprestados da biblioteca, e montou nos fundos uma câmera improvisada para testar movimento. Em 1921, ainda na casa dos vinte, abriu o próprio estúdio: Laugh-O-Gram Films.

A ideia era ambiciosa. Curtas animados que reinventavam contos de fadas com humor moderno: Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas. Disney contratou jovens desenhistas, alguns que o seguiriam pelo resto da vida. Fechou um contrato de distribuição com uma empresa de Nova York que prometia pagamento adiantado.

A empresa nunca pagou. Foi à falência devendo a Disney quase tudo que ele precisava para manter as portas abertas.

Sem o dinheiro do distribuidor, o Laugh-O-Gram afundou rápido. Disney não tinha como pagar os funcionários nem o aluguel. Os animadores foram embora, um a um. As contas se acumularam.

 

Em 1923, o estúdio faliu. Disney perdeu o lugar onde morava por não conseguir pagar, e há relatos de que chegou a dormir no próprio escritório e a tomar banho na estação de trem. Comia restos. Pegava uma refeição quente por semana num restaurante onde tinha crédito.

Aos vinte e um anos, estava falido, sem casa e sem o estúdio que era a única coisa em que acreditava.

 

Vendeu a câmera para comprar a passagem e pegou um trem para a Califórnia com quarenta dólares no bolso e uma mala de papelão com uma muda de roupa e um curta inacabado lá dentro.

 
 
 
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III

O Camundongo, a Floresta e o Império

 

Em Hollywood, Disney se juntou ao irmão Roy, que cuidaria do dinheiro pelos cinquenta anos seguintes, e recomeçou do zero num pequeno escritório nos fundos de uma imobiliária. O curta inacabado que trouxera de Kansas City, misturando uma menina de carne e osso com um mundo animado, virou uma coleção de curtas que finalmente vendeu. Depois veio um coelho chamado Oswald, um sucesso real.

E então a segunda traição. Em 1928, ao tentar renegociar, Disney descobriu que não era dono de Oswald: os direitos pertenciam ao distribuidor, que ainda atraíra para o próprio lado quase toda a equipe de animadores. Disney saiu da reunião em Nova York sem o personagem e sem a equipe.

Na viagem de trem de volta, segundo a história que ele mesmo contava, rabiscou um camundongo.

 

O camundongo se chamou Mickey. Em 1928, Steamboat Willie estreou com som sincronizado, algo quase inédito num desenho. A plateia viu um ratinho assobiar no compasso da própria música. O cinema de animação nunca mais foi o mesmo.

~ A virada de 1928

 

Disney não parou no camundongo. Apostou tudo no que chamavam de loucura: um longa-metragem inteiro de animação, quando ninguém acreditava que um público aguentaria mais de poucos minutos de desenho. Hipotecou a própria casa para terminar. Em 1937, Branca de Neve e os Sete Anões estreou e arrancou aplausos de pé de uma plateia que incluía os maiores nomes de Hollywood.

Quando morreu, em 1966, Walt Disney tinha conquistado mais Oscars do que qualquer pessoa na história, e havia fundado um império que ainda hoje desenha a infância do planeta. O homem sem imaginação.

 

Vieram Pinóquio, Fantasia, Bambi. Vieram os parques que transformaram terreno baldio em mundo construído. O menino a quem disseram que não tinha imaginação passou a ser, para gerações inteiras, a própria palavra para imaginação.

 
 
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IV

A Lição

 

Guarde o episódio do editor, porque ele vai voltar na sua vida com outro rosto. Mais cedo ou mais tarde alguém com autoridade vai olhar para o que você sabe fazer e dizer, com toda a calma do mundo, que ali não há talento, nem futuro, nem imaginação.

A pessoa pode até estar sendo sincera. O que ela não consegue ver é a curva. Ela está julgando o ponto onde você está, não a direção para onde você anda.

 

Você não controla o veredito dos outros sobre o seu começo. Controla se vai entregar a caneta a eles, ou continuar rabiscando o seu camundongo no trem de volta.

 

A queda do Laugh-O-Gram, o despejo, o trem com quarenta dólares: nada disso foi consolo disfarçado de aprendizado. Foi fome de verdade. Mas foi também a peneira que separou quem desiste de quem volta a desenhar no dia seguinte.

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