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A Queda do Dia
Uma Tela Vendida
Van Gogh vendeu um quadro em vida. Hoje é o pintor mais cobiçado do planeta.
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| I | O Quarto Amarelo em Auvers |
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29 de julho de 1890. Auvers-sur-Oise, a uma hora de trem de Paris, França.
O quarto era pequeno, no andar de cima de uma estalagem barata. Numa cama estreita, um homem de barba ruiva agonizava havia dois dias com uma bala alojada no abdômen. Os médicos do vilarejo não souberam, ou não quiseram, retirá-la. Ele fumava cachimbo em silêncio, recusando-se a acusar quem quer que fosse.
Ao lado da cama estava Theo, o irmão mais novo, que viera de Paris no primeiro trem ao receber a notícia. Os dois conversaram em holandês, baixinho. Em algum momento da madrugada, Vincent van Gogh disse a frase que ficaria: a tristeza vai durar para sempre. Morreu por volta de uma da manhã. Tinha 37 anos.
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No depósito da estalagem e no apartamento de Theo havia centenas de telas encostadas, empilhadas, esquecidas. Em dez anos pintando como um possesso, mais de oitocentas pinturas, Vincent havia vendido, oficialmente, um único quadro. |
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Ele tentara ser tudo antes de ser pintor. Negociante de arte, e foi demitido. Professor na Inglaterra, sem salário. Estudante de teologia, reprovado. Missionário entre os mineiros de carvão da Bélgica, onde deu as próprias roupas aos pobres e dormiu no chão, até a própria igreja o dispensar por excesso de zelo. Só aos 27 anos, fracassado em cada caminho, pegou num lápis para valer.
A partir daí viveu da bondade de uma única pessoa. Theo, marchand em Paris, mandava dinheiro todo mês, religiosamente, ano após ano. As tintas, o aluguel, o pão, os modelos que Vincent às vezes não tinha como pagar: tudo saía do bolso do irmão.
Vincent sabia o peso disso e escrevia cartas torturadas, prometendo que um dia as telas se venderiam, que Theo recuperaria cada franco investido.
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As telas não se vendiam. Os poucos que viam seu trabalho achavam as cores violentas, o traço grosseiro, a coisa toda exagerada e doente. Ele pintava com uma urgência que ninguém comprava. |
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Em Arles, no auge da solidão, teve o colapso em que cortou parte da própria orelha. Internou-se voluntariamente num asilo em Saint-Rémy, e foi de dentro dele, vendo o mundo por uma janela gradeada, que pintou as estrelas rodopiando.
Morreu convencido de que havia desperdiçado a vida e o dinheiro do irmão. Nas últimas cartas, falava de si como um peso, um homem cuja obra não levaria a lugar nenhum. O veredito sobre Vincent van Gogh, no dia em que ele morreu, era unânime e cruel: um excêntrico que falhou em tudo, inclusive em pintar.
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Mais de oitocentas telas. Quase mil desenhos. Uma única venda. E a certeza, ao morrer, de que tudo aquilo fora em vão. |
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Theo não suportou a perda. Adoeceu de corpo e de espírito e morreu seis meses depois do irmão, aos 33 anos. A viúva dele, Johanna van Gogh-Bonger, herdou então uma coisa que ninguém mais queria: centenas de telas invendáveis e um maço grosso de cartas entre os dois irmãos.
A maioria das pessoas teria deixado aquilo apodrecer num sótão. Johanna fez o contrário. Organizou as cartas, emprestou quadros a exposições, escreveu, insistiu, recusou vender barato. Década após década, empurrou a obra de um cunhado morto para dentro dos museus da Europa. Foi ela, mais que qualquer crítico, quem transformou um fracassado em mito.
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As cores que pareciam violentas viraram a definição de intensidade. O traço grosseiro virou assinatura. A Noite Estrelada, pintada de uma cela de asilo, é hoje talvez a imagem mais reproduzida da história da arte. ~ O que o mundo levou décadas para enxergar |
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Seus girassóis e retratos passaram a quebrar recordes em leilão, disputados por museus e bilionários por dezenas de milhões de dólares. O homem que vendeu uma tela em vida tornou-se o pintor mais reverenciado e cobiçado do planeta.
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Vincent nunca soube de nada disso. Não viu um único museu carregar seu nome, nem uma única multidão fazer fila para olhar suas estrelas. Todo o triunfo aconteceu do outro lado de uma porta que ele não chegou a abrir. |
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Van Gogh fez o trabalho inteiro sem nenhuma prova de que valia a pena. Pintou oitocentas vezes sem aplauso, sem venda, sem certeza, sustentado só pela fé do irmão e pela própria teimosia. O veredito do mundo sobre ele esteve errado por completo, e levou décadas para se corrigir.
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O reconhecimento é um relógio atrasado. Às vezes chega anos depois. Às vezes só depois de você. Isso não torna o trabalho menos verdadeiro hoje. |
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Talvez você esteja fazendo agora um trabalho que ninguém reconhece, e tirando disso a conclusão de que ele não presta. Cuidado com essa conta. O que Vincent pintou já era genial no dia em que ninguém quis. A única coisa que faltava era o mundo ficar pronto para ver.
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