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Edição #009
O Homem que Viu a Terra Girar
Galileu provou. A Igreja obrigou-o a negar.
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| I | O Telescópio e a Heresia |
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7 de janeiro de 1610. Pádua, Itália.
A noite estava limpa. Sem nuvens. Sem lua visível. Galileu Galilei subiu ao terraço de sua casa com um tubo de cobre e duas lentes de vidro. O instrumento era rudimentar, um brinquedo, se comparado aos telescópios que viriam depois.
Mas era suficiente.
Ele apontou para Júpiter. E viu algo que ninguém jamais havia visto.
Três pequenos pontos de luz ao lado do planeta. Na noite seguinte, os pontos tinham mudado de posição. Na noite seguinte, de novo. Galileu anotou cada posição com precisão obsessiva. Depois de semanas de observação, a conclusão era inevitável: aqueles pontos não eram estrelas. Eram luas. Luas orbitando Júpiter.
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Se Júpiter tinha luas orbitando ao seu redor, então nem tudo no universo girava ao redor da Terra. |
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Galileu tinha 45 anos. Era professor de matemática na Universidade de Pádua. Ganhava mal. Não era ninguém, pelos padrões da corte. Mas naquela noite, com um telescópio que ele mesmo aperfeiçoou, começou a demolir um edifício intelectual de 1.500 anos.
O modelo geocêntrico, a Terra no centro do universo, não era apenas ciência. Era teologia. Era política. Era a base sobre a qual a Igreja Católica construíra sua autoridade cósmica. Dizer que a Terra se movia era dizer que a Igreja estava errada.
E dizer que a Igreja estava errada, em 1610, era uma forma elaborada de suicídio.
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Galileu não era um rebelde. Esse é o erro mais comum sobre ele. Era um católico devoto, filho de um músico florentino, educado num mosteiro. Amava a Igreja. Acreditava, sinceramente, que a verdade científica e a verdade religiosa podiam coexistir.
A Igreja não concordou.
Em 1616, o cardeal Roberto Bellarmino convocou Galileu a Roma. A reunião foi educada. Firme. Bellarmino informou que o sistema copernicano era formalmente herético. Galileu poderia discutir a teoria como hipótese matemática, mas não como realidade física.
Galileu aceitou. Ficou em silêncio por 16 anos.
Não por medo. Por estratégia. Esperou que o clima mudasse. Em 1623, um novo papa foi eleito: Urbano VIII, antigo amigo e admirador de Galileu. O cientista acreditou que agora podia falar.
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O livro se chamou Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, publicado em 1632. Tinha três personagens: Salviati, que defendia o heliocentrismo; Sagredo, o moderador; e Simplício, que defendia o geocentrismo. Galileu jurou que era imparcial. Ninguém acreditou. Salviati era erudito e persuasivo. Simplício era obtuso e ridículo.
E o pior: alguns argumentos na boca de Simplício eram reconhecivelmente frases do próprio papa Urbano VIII.
O papa se sentiu traído. O amigo tornara-se inimigo.
Em outubro de 1632, Galileu recebeu uma intimação do Santo Ofício da Inquisição. Tinha 68 anos. Estava doente. Sofria de artrite severa. Pediu adiamento. Negado. Pediu para ser julgado em Florença. Negado. Viajou a Roma no inverno, tremendo de frio e dor.
O julgamento começou em abril de 1633. Galileu foi ameaçado com tortura. O tribunal não queria argumentos. Queria obediência.
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"Eu, Galileu, filho do falecido Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade... abjuro, amaldiçoo e detesto os mencionados erros e heresias..."
~ Galileu Galilei, declaração perante a Inquisição, 22 de junho de 1633
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Ele negou o que sabia ser verdade. Renegou o trabalho de uma vida. Declarou, de joelhos, que a Terra não se movia.
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"Eppur si muove": E, no entanto, ela se move. |
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Provavelmente não disse. Dizer isso no salão da Inquisição teria sido uma sentença de morte. Mas a frase sobreviveu como verdade poética, mesmo que não tenha sido verdade histórica. Porque a Terra, de fato, se movia. E ele sabia.
A sentença foi prisão domiciliar em sua villa em Arcetri. Lá, Galileu passou os últimos oito anos de vida. Cego nós últimos quatro, a ironia final para um homem que dedicou a existência a ver melhor.
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Galileu morreu em 8 de janeiro de 1642, em Arcetri. Tinha 77 anos. O Grão-Duque da Toscana quis erguer um monumento fúnebre. O papa proibiu. Galileu foi enterrado sem lápide, sem cerimônia.
Quase um século depois, em 1737, os restos foram transferidos para um túmulo monumental na Basílica de Santa Croce. Ficou ao lado de Michelangelo e Maquiavel. O universo tem um senso de humor peculiar.
Mas o verdadeiro triunfo não esperou o túmulo.
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No mesmo ano em que Galileu morreu, 1642, nasceu, na Inglaterra, Isaac Newton. |
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Newton pegou as observações de Galileu, as leis de Kepler e sua própria genialidade e construiu a física clássica. Os Principia Mathematica são, em parte, uma formalização do que Galileu já havia demonstrado: que os corpos caem com a mesma aceleração, que o movimento é relativo, que o universo obedece a leis matemáticas, não a decretos teológicos.
A contribuição de Galileu vai além da astronomia. Ele inventou o método. Antes dele, a ciência era feita por argumentação filosófica: você citava Aristóteles e esperava que isso bastasse. Depois dele, a ciência passou a ser feita por observação, experimento e medição.
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Galileu não apenas mudou o que sabemos. Mudou como sabemos. |
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Em 1992, 359 anos depois do julgamento, o papa João Paulo II emitiu uma declaração admitindo que a Igreja havia cometido um erro ao condenar Galileu. O processo levou 13 anos de revisão. Trezentos e cinquenta e nove anos para admitir que a Terra, de fato, se move.
O telescópio que Galileu usou em Pádua está preservado no Museo Galileo, em Florença. É um tubo de madeira e couro, menor do que um braço. Com ele, um homem viu o que ninguém via. Com ele, o universo mudou de forma.
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Galileu não caiu porque estava errado. Caiu porque a verdade que ele carregava era pesada demais para as instituições do seu tempo.
Existe uma diferença entre ver a verdade e poder dizê-lá. Galileu viu. Disse. E pagou o preço. Mas a abjuração, aquele momento de joelhos no chão, negando o que os próprios olhos haviam confirmado, não foi fraqueza. Foi a decisão de um homem de 68 anos que escolheu sobreviver para continuar trabalhando.
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Nos anos de prisão domiciliar, Galileu escreveu Discursos e Demonstrações Matemáticas Sobre Duas Novas Ciências, publicado clandestinamente na Holanda em 1638. O livro que fundou a física moderna foi escrito por um prisioneiro cego.
~ O triunfo silencioso de Arcetri
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A Inquisição podia calar a boca. Não podia parar a mente.
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Toda queda esconde um triunfo. Nos vemos na próxima quarta. |
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☞ Quiz da edição
Verdadeiro ou Falso: O livro Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, de Galileu, foi publicado em 1632 e contava com três personagens, sendo Simplício o defensor do heliocentrismo.
Clique para descobrir se acertou.
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Toda quarta-feira às 09:09
Toda queda esconde um triunfo
Histórias reais de quem caiu no abismo e voltou carregando fogo. Toda quarta na sua caixa de entrada.
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