Queda e Triunfo — Edição #006
Queda e Triunfo

Edição #006

O Acidente que Criou uma Artista

Frida Kahlo teve a coluna quebrada em três lugares. E pintou deitada.

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Queda e Triunfo

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Jovem coberta de pó dourado entre destroços de madeira
 
 
I

O Ônibus das Cinco da Tarde

 

17 de setembro de 1925. Cidade do México.

O ônibus era de madeira. Isso importa. Os ônibus modernos, de metal e vidro, teriam absorvido parte do impacto. Mas em 1925, na Cidade do México, os ônibus eram caixas de madeira sobre rodas, coloridos como brinquedos de criança. Frágeis como brinquedos de criança.

Frida Kahlo tinha 18 anos. Voltava da escola com Alejandro Gómez Arias, seu namorado. Sentaram-se nos bancos de trás. O ônibus cruzou a esquina da rua de Cuauhtémoctzin. Um bonde elétrico vinha na direção contrária. O motorista tentou desviar.

Não conseguiu.

O bonde atingiu o ônibus pelo meio. A madeira se estilhaçou. Os passageiros foram arremessados. Um corrimão de ferro atravessou o corpo de Frida: entrou pela lateral do quadril e saiu pelo outro lado, fraturando a pelve em três pontos.

A coluna vertebral quebrou em três lugares. A clavícula partiu. Duas costelas se despedaçaram. A perna direita sofreu onze fraturas. O pé direito foi esmagado.

 

Quando os primeiros socorristas chegaram, encontraram Frida coberta de sangue e de purpurina dourada. Um passageiro que carregava um pacote de pó dourado, usado por artesãos, teve o pacote estourado no impacto. O pó cobriu o corpo de Frida como uma segunda pele.

 

"Ficou toda dourada de sangue."

 

Ela tinha 18 anos. E a vida como conhecia havia acabado.

 
 
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II

A Queda

 

Os médicos deram um diagnóstico que era, na prática, uma sentença. Frida sobreviveria. Mas a lista de danos era tão longa que a sobrevivência parecia quase um castigo.

Ficou três meses imobilizada em um colete de gesso. Deitada de costas, olhando para o teto do quarto na Casa Azul, em Coyoacán. Não podia se mover. Não podia sentar. Não podia virar o corpo. Os primeiros dias foram de dor pura, o tipo de dor que não permite pensamento, que ocupa todo o espaço da consciência.

Depois veio o tédio. E depois do tédio, o desespero.

A mãe instalou um espelho no teto, acima da cama. Foi um gesto prático, para que Frida pudesse se ver, se arrumar, se pentear. Mas Frida fez outra coisa com aquele espelho. Olhou para o próprio rosto durante horas. Dias. Semanas.

E começou a pintar.

O pai, Guillermo Kahlo, fotógrafo de profissão, emprestou suas tintas a óleo. A mãe mandou construir um cavalete adaptado que permitia pintar deitada. E Frida, que até então queria ser médica, começou a criar.

 

Nos anos seguintes, a recuperação foi uma montanha-russa de falsa esperança. Frida voltou a caminhar. Depois parou. Voltou. Parou de novo. Ao longo da vida, passou por mais de 30 cirurgias. Usou coletes ortopédicos de gesso, couro e aço.

O casamento com Diego Rivera, em 1929, acrescentou outra camada de dor. Rivera era um gênio e um desastre ambulante. As traições eram públicas, sistemáticas e cruéis. A mais devastadora: o caso com Cristina, irmã mais nova de Frida.

 

"Sofri dois grandes acidentes na minha vida. O primeiro foi o bonde. O segundo foi Diego."

~ Frida Kahlo, Diários

 

Frida sofreu três abortos espontâneos. Cada um deles uma repetição biológica do trauma original: o corpo que o acidente quebrou se recusava a gerar vida. Ela pintou Hospital Henry Ford em 1932, deitada numa cama de hospital, cercada de símbolos de perda: um feto, uma pelve fraturada, uma flor murcha, uma máquina industrial. O quadro não é bonito. É insuportável. E exatamente por isso é genial.

A dor nunca parou. Nos últimos anos, Frida não conseguia mais ficar de pé por mais de alguns minutos. Bebia uma garrafa de conhaque por dia. Tomava morfina. Pintava dopada, com as mãos tremendo.

 

"Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?"

 

Escreveu isso no diário em 1953, ao lado do desenho da perna que acabara de ser amputada abaixo do joelho.

 
 
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III

O Triunfo

 

Abril de 1953. Galeria de Arte Contemporânea, Cidade do México.

Frida Kahlo recebeu, pela primeira vez, uma exposição individual no México. Tinha 46 anos. Estava tão doente que os médicos proibiram sua presença.

Ela foi assim mesmo.

Mandou transportar sua cama de quatro colunas para o centro da galeria. Chegou de ambulância. Foi carregada para dentro. Deitou-se na cama, cercada de seus quadros, vestida com trajes tehuana, anéis de prata nos dedos, flores no cabelo.

A fila dava a volta no quarteirão.

 

Frida morreu um ano depois, em 13 de julho de 1954. Tinha 47 anos. As últimas palavras em seu diário foram: "Espero que a partida seja alegre, e espero nunca voltar."

A partida não foi o fim. Foi o começo.

 

Nas décadas seguintes, Frida Kahlo deixou de ser uma pintora mexicana para se tornar um fenômeno cultural planetário. Seus autorretratos, com as sobrancelhas unidas, o olhar fixo, a dor transformada em símbolo, se tornaram a imagem mais reconhecível da arte latino-americana. Em 2021, seu quadro Diego y Yo foi vendido por 34,9 milhões de dólares.

Mas os números não capturam o que Frida fez de verdade.

Ela inventou uma forma de arte que não existia antes. Uma forma que usava o corpo feminino não como objeto de contemplação, mas como campo de batalha. Cada autorretrato era um laudo médico e um manifesto ao mesmo tempo. Ela pintava as cicatrizes, os coletes, os abortos, as lágrimas, os pregos na coluna. Não escondia nada. Numa época em que se esperava que mulheres sofressem em silêncio, Frida sofreu em Technicolor.

 

"Nunca pintei sonhos. Pintei minha própria realidade."

~ Frida Kahlo, em resposta a André Breton

 

A Casa Azul, onde nasceu e morreu, é hoje o museu mais visitado de Coyoacán. Mais de 25 mil pessoas por mês caminham pelos mesmos corredores onde Frida se arrastava com muletas, entre quadros que sangravam na parede como feridas abertas.

 
 
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IV

A Lição

 

O acidente de 1925 tirou de Frida quase tudo. A mobilidade. A maternidade. A saúde. Anos de vida. Mas deu-lhe a única coisa que faz um artista: a impossibilidade de ser qualquer outra coisa.

Antes do ônibus, Frida queria ser médica. Depois do ônibus, não havia escolha. A pintura não era vocação. Era o único território que um corpo partido ainda podia habitar.

Não existe arte sem restrição. O cavalete adaptado, o espelho no teto, a cama como ateliê: tudo isso não era deficiência. Era a moldura dentro da qual a obra se tornou possível.

 

A queda não foi o obstáculo entre Frida e a arte. A queda foi a porta.

 

Toda queda esconde um triunfo.
Nos vemos na próxima quarta.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: O quadro Diego y Yo, de Frida Kahlo, foi vendido em 2021 por 34,9 milhões de dólares, tornando-se a obra latino-americana mais cara já arrematada em leilão.

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