Queda e Triunfo — Edição #005
Queda e Triunfo

Edição #005

O Compositor que Ficou Surdo

Beethoven compôs a Nona Sinfonia sem ouvir uma nota.

 
 
I

O Silêncio que Ninguém Via

 

6 de outubro de 1802. Heiligenstadt, Áustria.

A casa ficava no fim de uma estrada de terra, cercada de vinhedos. O outono já começava a dourar as folhas. Ludwig van Beethoven sentou-se à mesa com uma pena e um papel. Não para compor. Para escrever o que acreditava ser sua última carta.

Tinha 31 anos. Era o pianista mais celebrado de Viena. Os salões da aristocracia disputavam sua presença. Os editores publicavam suas sonatas. O público aplaudia de pé.

Mas havia um segredo que ele guardava há seis anos, com a disciplina de um soldado escondendo uma ferida mortal.

Beethoven estava ficando surdo.

Não de uma vez. Aos poucos. Primeiro, um zumbido constante, como um inseto preso dentro do crânio. Depois, as vozes dos amigos começaram a chegar abafadas. As notas agudas do piano perderam nitidez. E então veio o silêncio. Não o silêncio da paz. O silêncio da mutilação.

 

"Que humilhação quando alguém ao meu lado ouvia uma flauta ao longe e eu não ouvia nada. Tais experiências me levaram à beira do desespero. Faltou pouco para eu mesmo pôr fim à minha vida."

~ Testamento de Heiligenstadt, 1802

 

A carta nunca foi enviada. Foi encontrada numa gaveta depois de sua morte, 25 anos depois.

 
 
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II

A Queda

 

A surdez de Beethoven não era apenas uma condição médica. Era a destruição do único instrumento que importava.

Um pintor cego pode ao menos lembrar as cores. Um escritor mudo ainda escreve. Mas um músico surdo? Um músico surdo é uma contradição que a lógica não aceita. E era exatamente isso que Beethoven estava se tornando.

Consultou todos os médicos que Viena podia oferecer. Nenhum ajudou. Tentou tratamentos com óleos, banhos termais, galvanismo, emplastros de raiz de rábano. Nada funcionou. A causa provável era otosclerose, uma calcificação progressiva dos ossos do ouvido médio. Irreversível. Incurável.

Beethoven inventou um sistema desesperado: encostava uma vareta de madeira no piano e prendia a outra ponta entre os dentes, sentindo as vibrações pelo osso do crânio. Não era ouvir. Era o fantasma de ouvir.

 

A imprensa de Viena começou a notar. Os críticos comentavam que suas composições recentes tinham passagens estranhas: dinâmicas excessivas, contrastes violentos, fortíssimos que pareciam gritos. Não entendiam que aquele homem estava tentando compor música alta o suficiente para que ele mesmo pudesse senti-lá.

A solidão era absoluta. Beethoven nunca se casou. As mulheres que amou (Giulietta Guicciardi, Josephine Deym, a misteriosa Amada Imortal) permaneceram inalcançáveis. A surdez transformou cada conversa em exercício de frustração. Os amigos precisavam escrever suas perguntas em cadernos, os chamados Konversationshefte, e Beethoven respondia em voz alta, num volume que não conseguia calibrar.

Mais de 400 desses cadernos sobreviveram. São o registro de um homem que ouve o mundo inteiro falar, mas só consegue ler o que dizem.

 

Por volta de 1818, a surdez era total. Completa. Definitiva. Beethoven vivia no silêncio mais absoluto que um músico pode habitar.

 

E foi exatamente então que começou a escrever a obra que mudaria a música para sempre.

 
 
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III

O Triunfo

 

7 de maio de 1824. Teatro Kärntnertor, Viena.

A sala estava lotada. Dois mil lugares ocupados. O programa anunciava a estreia da Nona Sinfonia em Ré Menor, Opus 125. Beethoven insistiu em reger pessoalmente, ou, mais precisamente, em ficar de pé ao lado do maestro Michael Umlauf, marcando o tempo com gestos largos enquanto a orquestra seguia Umlauf, não ele.

Beethoven não ouvia nada. Nem o sussurro da plateia antes do início. Nem o ataque dos primeiros violinos. Nem o crescendo do segundo movimento. Nem o coro que entrou no quarto movimento cantando as palavras de Friedrich Schiller:

 

"Freude, schöner Götterfunken": Alegria, bela centelha dos deuses.

~ Friedrich Schiller, Ode à Alegria

 

Quando a sinfonia terminou, a plateia explodiu. Aplausos, gritos, chapéus atirados ao ar. Cinco salvas de palmas, numa época em que o imperador recebia três. Beethoven ainda estava de costas, regendo compassos que já haviam acabado.

A contralto Caroline Unger caminhou até ele é, gentilmente, segurou seus ombros e o virou para a plateia.

Foi então que ele viu. Não ouviu. Viu. Duas mil pessoas de pé, batendo palmas com uma violência que ele só podia imaginar. Lágrimas escorreram pelo rosto do compositor. Ele curvou a cabeça.

 

A Nona Sinfonia não era apenas uma composição. Era algo que nunca havia existido: uma sinfonia com vozes humanas. Um coro cantando sobre a fraternidade universal dentro de uma forma que, até então, era puramente instrumental. Beethoven quebrou a regra mais fundamental do gênero. E ao quebrá-la, inventou o futuro.

 

Wagner disse que depois da Nona, a sinfonia estava completa. Brahms levou 21 anos para terminar sua Primeira Sinfonia porque sentia o peso da sombra de Beethoven. Quando a União Europeia precisou de um hino, escolheu o quarto movimento da Nona.

Quando a Voyager 1 partiu para o espaço interestelar em 1977, levava um disco de ouro com gravações sonoras da humanidade. A Nona estava lá.

 

Um homem que não podia ouvir compôs a música que a humanidade escolheu para se apresentar ao universo.

 

Beethoven morreu em 26 de março de 1827, aos 56 anos. Vinte mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre em Viena. O homem que viveu em silêncio partiu sob o som de uma cidade inteira em luto.

 
 
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IV

A Lição

 

Há uma diferença entre perder algo e ser destruído por essa perda. Beethoven perdeu a audição. Não perdeu a música.

A música não morava nos ouvidos. Morava em algum lugar mais fundo, um lugar que a medicina não consegue nomear e que a surdez não consegue alcançar. Quando o som do mundo externo desapareceu, o som interno ficou mais alto. Mais claro. Mais brutal.

A Nona Sinfonia não foi composta apesar da surdez. Foi composta por causa dela. Sem o barulho do mundo, Beethoven ouviu algo que ninguém mais podia ouvir. E escreveu para que todos pudessem.

 

A queda não silenciou a música. A queda removeu tudo o que estava entre a música e o homem.

 

Toda queda esconde um triunfo.
Nos vemos na próxima quarta.

 

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