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Queda e Triunfo
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A Queda do Dia

O Homem que Perdeu Tudo

Lincoln faliu, perdeu a noiva e a sanidade. Depois aboliu a escravidão.

 
 

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Queda e Triunfo

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Homem alto e abatido sentado sozinho num quarto escuro ao amanhecer
I

A Cena

 

Janeiro de 1841. New Salem e Springfield, Illinois, Estados Unidos.

O homem mais alto da cidade não conseguia sair da cama. Tinha 31 anos, quase um metro e noventa de ossos compridos, e estava deitado num quarto frio incapaz de levantar. Os amigos esconderam dele as facas e as navalhas. Tinham medo do que ele faria consigo mesmo.

"Sou agora o homem vivo mais miserável. Se o que sinto fosse igualmente distribuído por toda a família humana, não haveria um único rosto alegre sobre a Terra."

 

Ele não exagerava. Vinha de uma sequência de golpes que teria quebrado qualquer um. A loja que abrira tinha afundado em dívidas. A mulher que ele amava tinha morrido de febre. E a política, a única coisa que parecia restar, ainda não tinha lhe dado nada além de portas fechadas.

O futuro presidente que libertaria quatro milhões de pessoas da escravidão estava, naquele janeiro, perto demais de desistir de viver.

 
 
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II

A Queda

 

A lista de fracassos de Lincoln é longa o bastante para virar lenda, e quase toda ela é verdade.

Em 1832, abriu uma pequena loja em New Salem com um sócio. O negócio quebrou. O sócio morreu pouco depois, deixando a dívida inteira nas costas de Lincoln. Ele a chamou de "a Dívida Nacional" e levou anos pagando cada centavo, num tempo em que muitos simplesmente fugiam dos credores. Lincoln não fugiu.

No mesmo ano, candidatou-se pela primeira vez à Assembleia Legislativa de Illinois. Perdeu. Era um homem sem instrução formal, sem dinheiro, sem família influente, tentando entrar num jogo feito para os bem-nascidos.

Em 1835, Ann Rutledge, a jovem por quem ele nutria um afeto profundo, morreu de febre tifoide aos 22 anos. Foi essa perda, somada ao esgotamento, que o levou ao colapso nervoso do inverno seguinte.

 

Quem conviveu com Lincoln naquele período descreveu um homem destruído, que vagava pela floresta sob a chuva, incapaz de aceitar que a chuva caísse sobre o túmulo dela. Foram dias de cama, de lâminas escondidas, de amigos em vigília.

 

E quando ele se reergueu e voltou a disputar o poder, o poder continuou recusando. Lincoln perdeu a indicação para vice-presidente em 1856. Foi derrotado na corrida para o Senado em 1854. Tentou de novo o Senado em 1858, num dos debates políticos mais célebres da história americana, contra Stephen Douglas. Perdeu outra vez.

 

Um negócio falido, uma dívida de quase uma década, a morte da mulher amada, um colapso que o deixou de cama e mais de vinte anos de derrotas eleitorais. Pela aritmética do mundo, Lincoln era um fracasso consumado.

 
 
 
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III

O Triunfo

 

Em 1860, o fracasso consumado foi eleito presidente dos Estados Unidos.

Não foi um triunfo confortável. Lincoln venceu uma nação à beira de se partir ao meio. Antes mesmo de tomar posse, sete estados do Sul já haviam declarado separação. Quando ele assumiu, em março de 1861, o país caminhava para a guerra civil mais sangrenta de sua história, e Lincoln estaria no centro dela do primeiro dia ao último.

 

Em 1º de janeiro de 1863, no meio da guerra, assinou a Proclamação de Emancipação. Depois lutou para transformar o princípio em lei permanente: a Décima Terceira Emenda, que aboliu a escravidão em todo o território americano.

~ Quatro milhões de pessoas livres

 

Em novembro de 1863, num cemitério de Gettysburg, diante dos túmulos de milhares de soldados, Lincoln falou por pouco mais de dois minutos. Foram 272 palavras. Bastaram para redefinir o que aquela nação dizia ser: um país concebido na ideia de que todos os homens nascem iguais. O homem que mal tinha frequentado a escola escreveu um dos textos mais estudados da língua inglesa.

Em 14 de abril de 1865, dias depois de a guerra terminar, foi assassinado num teatro de Washington. Mas a obra estava feita. Quatro milhões de pessoas haviam deixado de ser propriedade, e a união que ele jurara preservar sobreviveu.

 

O homem que não conseguira sair da cama aos 31 anos havia mudado o destino de um continente.

 
 
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IV

A Lição

 

A história de Lincoln costuma ser contada como uma lista de fracassos vencidos pela persistência, e essa leitura não está errada. Mas falta nela o que torna o exemplo dele insuportavelmente humano: ele não persistiu porque era de ferro. Persistiu carregando a melancolia como um peso constante, com a dívida nas costas, com o luto na memória, com a derrota como companhia frequente.

 

O placar do meio do caminho nunca é o placar final. Uma sequência de derrotas, por mais longa, não é uma sentença.

 

Você talvez esteja somando seus próprios fracassos agora, contando-os como prova de que não vai dar certo. A vida de Lincoln não promete que toda queda termina em triunfo. Mas mostra que o que parecia o fim de um homem acabado foi apenas o capítulo anterior ao que ninguém esqueceria.

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